segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

violência?


"Porque há tanta violência? Nós tratamos de educar para a não-violência, nós somos pessoas comprometidas com a não-violência, nós nos movemos, nos organizamos, convencidos que a não-violência ativa é a única metodologia de ação válida.
Eu querua compartilhar com vocês esta reflexão e acredito que todos temos essas mesmas dúvidas. Porque há tanta violência? Porque este ser humano, que sempre reconhece como os melhores momento, aqueles momentos em que se vincula com os demais, em que se comunica com os outros, porque este ser humano, segue neste estado de tanta violência?


Porque a crueldade? Porque a crueldade que é maior que a violência, que é essa intenção violenta para com outros seres humanos? Esta é uma pergunta que deixa algumas pessoas muitas vezes angustiada, meio complicado. Que acontece com esse ser humano? O que se passa com este ser humano que segue aplicando a violência contra outros seres humanos?

Deve haver muitas hipóteses, deve haver muitas explicações, deve haver muitas justificações, porém definitivamente nós seguimos encontrando, dia-a-dia, com que o ser humano aplica todas as formas de violência imagináveis contra outros seres humanos.

Por trás dessa violência, sempre nos encontramos com a negação do humano do outro, sempre está o desconhecimento ou o não reconhecimento do outro que está na minha frente, do humano que há nele.

Mas eu acredito também que uma pessoa pode ter outra visão, frente a esta situação de tanta violência que existe hoje em dia, no mundo. Um pode também olhar desde outro ponto e dizer que o que acontece é que o ser humano é um ser muito jovem, que o que acontece é que esta consciencia todavía não conseguiu, ainda, sair deste estado, um tanto pré-histórico de violência. É um ser muito novo o ser humano!. Não sei as cifras exatas, mas os tubarões levaram setenta milhões de anos dedicando-se a comer-se todos os que encontram em seu caminho... e as baratas, essas que andam por aí, cinquenta milhões de anos e não mudaram muito.

Este ser humano, já faz dois milhões de anos, todavia andava por aí em quatro patas e não muito mais; faz trezentos ou quatrocentocentos mil anos que ele recém descobriu o fogo. Setenta milhões de anos o tubarão mordendo o que pega, trescentos mil anos, nada mais, este ser humano descobriu o fogo. Não faz muito tempo que aprendeu a produzir o fogo. Não é tanto. Que são dez mil gerações? Uma porção de tataravós para trás. Não é muito!

Faz só oito ou dez mil anos que aprendeu a fundir os metais, doze mil, quatorze mil dá no mesmo. É muito pouco! E claro, aprende a fundir-los e faz algumas fontes, porém também faz algumas lanças e outras coisas.

Mas faz uns poucos mil anos, este ser humano via o outro e o que via era uma bela presa, como um frango e via o outro, e o via gordinho e o comia. Agarrava o seu inimigo, lhe cortava a cabeça e le succionava o cérebro e o comia. Também com certa intuição de que algo havia nesse cérebro, mas era assim. Faz mais de mil anos que eles andavam comendo-se uns aos outros e logo deixaram de comer-se, e ao invés de se comerem, diziam "não o como, o escravizo", soa terrível, mas vamos melhorar. Eu o escravizo e então o tenho trabalhando para mim, pelo menos não o como.

E assim foi. E depois de muito tempo nesse processo de tê-lo escravizado, pelos motivos que forem, descobriu que se pagava algumas moedas a esses escravos eles trabalhavam melhor. Então a alguns lhes dava algumas moedas e a outros não, e os primeiros rendiam mais. Como é? Deus escreve torto...? Como é?

E descobriu isso e então começou a lhe pagar e começou então a terminar com a escravidão. Claro que isso aparece nos contos para que as crianças saibam como a grande guerra ou luta acabou com a escravidão. Sim, sim, sim... definitivamente descobriu que se pagasse algumas moedas se produzia mais. Ok, porém terminou a escravidão! E agora então teria esse ser humano trabalhando, pagando uma miséria, umas poucas moedas e melhorou as condições, pois ele já não era escravo, estava trabalhando.

Além de trabalhar, lhe assegurava algumas questões, como lhe dava algo para a saúde, e o educava um pouco, pois assim ele poderia produzir mais e melhor, e então foi lhe melhorando as condições de vida e lhe foi dando alguma previsão. Descobriu que este ser humano estava tranquilo a respeito do seu futuro, também podia trabalhar melhor e nesse caminho de todas as formas, nos encontramos com as condições que foram mudando e que hoje em dia se vê bem este ser humano com situações de violência e de crueldade, de todas as formas, neste curto tempo, de todas as formas ele foi avançando e enquanto nosso amigo tubarão, que falamos antes, segue comendo tudo, aqui este ser humano vai se abrindo passo a passo com a sua intenção de transformar- se a si mesmo e de transformar a seu meio.
E pouco a pouco vão mundando as condições.

Mas segue aplicando a violência. Quando o ser humano vai deixar de aplicar a violência? Quando lhe reproduza repulsão visceral, quando o ato violento lhe produza rechaço, mas um rechaço visceral, um rechaço vegetativo, isso, todavia, ainda não se produziu.

Se entende o que é o rechaço visceral? Há ações que uma pessoa pode realizar que lhe produz rechaço visceral, e o exemplo não é muito elevado, mas comer excrementos lhe produz. Entendem então o que eu digo? Rechaço visceral! A violência não produz ainda esse rechaço visceral, esse rechaço que faz com que não se possa exercer esse ato.

Pois bem, terá que passar o tempo até que no ser humano se produza transformações físicas e psicológicas que façam com que para esse ser humano seja impossível o ato violento, porque seu corpo e seu psiquismo o rechaçam. E isso vai passar, nessa direção vai o ser humano. Não terminou a história, não se preocupem.

O problema é que essa mudança pode tomar muito tempo, por exemplo, um par de milhões de anos. Essa mudança, se é uma mudança ´física e se entendemos que nos últimos trezendo mil anos não se produziram mudanças físicas de importância no ser humano, pode tomar um largo tempo.

Então nós poderíamos não fazer nada e tudo iria bem, porque a longo prazo, finalmente, esse ser humano, iria gerando as transformações em si mesmo que o levariam, finalmente, a deixar para trás o ato violento.

Isso vai acontecer, a pergunta é: como nós podemo acelerar esse processo? Como nós podemos contribuir de algum modo que esse processo tome maior velocidade? Isso é parte de nossa ação, isso é parte do sentido de tudo aquilo que nós estamos realizando. É esse o sentido da ação estrutural que estamos colocando em marcha e esse é o sentido de ação pela não-violência que nós estamos fazendo e proclamando dia-a-dia.

Estamos contribuindo desse modo, quem sabe com pequenas migalhas, mas importantes nesse processo histórico, que o ser humano vai avançando desta pré-história e no futuro poderam rir tal como nós rimos hoje desse ser humano que comia outro ser humano.

Até lá vamos e nós humanistas de diferentes latitudes, o que estamos fazendo é contribuir nesse direção, estamos contribuindo em uma direção na qual não vamos ver o seu resultado final.

E quem sabe esse seja o aspecto mais maravilhoso que tem nossa ação, é uma ação que não termina em nós, não estamos lutando pela não violência, para que nosso pai não nos pegue, nem meu irmão não me bata; estamos lutando pela construção de uma sociedade não violenta para garantir a continuidade do futuro do ser humano, para garantir que esta pré-história seja mais breve possível e este, então, o ser humano em condições de atravessar o umbral que o leve a uma história verdadeiramente humana.

Muito Obrigado
Thomas Hirsch
Humanista Chileno na IV Jornadas Internacionais de Educação e não-violência
Na Universidad de Educación a Distancia UNED, Madri - Espanha"

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