segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

A RESPEITO DO HUMANO


Tortuguitas. Buenos Aires, Argentina.1º de Maio de 1983
Palestra para um grupo de estudos.
Uma coisa é a compreensão do fenômeno humano em geral e outra coisa muito diferente é o próprio registro da humanidade do outro.
Estudemos a primeira questão, ou seja, a compreensão do fenômeno humano em geral.Se dissermos que o que caracteriza o humano é a sociabilidade ou a linguagem, ou a transmissão da experiência, não definimos cabalmente o humano, porque no mundo animal (ainda que desenvolvidas de maneira elementar), encontramos todas essas expressões. Observamos reconhecimentos químicos de organismos da colméia, dos cardumes ou das manadas, e atrações ou repulsões que se dão como conseqüência disso. Existem organizações de hospedeiros, parasitas e simbióticas nas quais reconhecemos formas elementares que logo veremos entremeadas em algumas agrupações humanas...Também encontramos uma espécie de “moral” animal e resultados sociais punitivos para os transgressores. Ainda quando vistas de fora, essas condutas podem ser interpretadas como instintos de preservação da espécie ou como implicação de reflexos condicionados e incondicionados.

O rudimento técnico também não é estranho ao mundo animal, nem os sentimentos de afeto, ódio, pena e solidariedade entre membros de um grupo, ou entre espécies.Bem, então, o que define o humano enquanto tal? O que o define é a reflexão do histórico-social como memória pessoal. Todo animal é sempre o primeiro animal, mas cada ser humano é seu meio histórico e social e, além disso, é a contribuição para a transformação ou inércia deste meio.O meio para o animal é o meio natural. O meio para o ser humano é o meio histórico e social, é a transformação do mesmo e, certamente, é a adaptação do natural às necessidades imediatas e a longo prazo. Esta resposta diferenciada do ser humano frente aos estímulos imediatos, este sentido e direção de sua obra referente a um futuro calculado (ou imaginado), nos apresenta uma característica nova frente ao sistema do ideário, de comportamento e de vida dos expoentes animais. A ampliação do horizonte temporal da consciência humana permite-lhe atrasos frente aos estímulos e a seu posicionamento em um espaço mental complexo, habilitado para a colocação de deliberações, comparações e resultantes fora do campo perceptivo imediato.Em outras palavras: no ser humano não existe “natureza humana”, a menos que esta “natureza” seja considerada como uma capacidade diferente da animal, de estar se movendo de tempos em tempos fora do horizonte da percepção. Dito de outro modo: se existe algo de “natural” no ser humano, não é no sentido mineral, vegetal ou animal, mas sim de que o natural nele é a mudança, a história, a transformação. Tal idéia de mudança não se alinha de maneira conveniente com a idéia de “natureza” e por isso preferimos não usar esta última palavra como vem sendo feito e com a qual se tem justificado numerosas deslealdades contra o ser humano. Por exemplo: como os nativos de um lugar eram diferentes dos conquistadores de outro lugar, foram chamados de “naturais” ou aborígines. Como as raças apresentaram algumas diferenças morfológicas ou rudimentares, foram absorvidas por diferentes “naturezas” dentro da espécie humana e assim por diante. Desse modo, existia uma ordem “natural” e mudar essa ordem era um pecado contra o estabelecido de modo definitivo. Diferentes raças, sexos e posições sociais estavam estabelecidas dentro de uma ordem supostamente natural, que deveria se conservar de modo permanente.Assim a idéia de natureza humana serviu a uma ordem de produção natural, mas se fraturou na época da transformação industrial. Até os dias de hoje vemos vestígios da ideologia zoológica da natureza humana na Psicologia, por exemplo, na qual ainda se fala de certas faculdades naturais como a “vontade” e coisas semelhantes. O direito natural, o Estado como parte da natureza humana projetada, etc., não contribuíram com nada mais do que sua cota de inércia histórica e negação da transformação.Se a co-presença da consciência humana trabalha graças a sua enorme ampliação temporal e se a intencionalidade dessa consciência permite projetar um sentido, o característico do ser humano é ser e fazer o sentido do mundo. Como se diz em Humanizar a Terra: “Nomeador de mil nomes, fazedor de sentido, transformador do mundo... teus pais e os pais de teus pais continuam em ti. Não és um bólido que cai e sim uma brilhante seta que voa aos céus. És o sentido do mundo e quando aclaras teu sentido, iluminas a Terra. Te direi qual é o sentido de tua vida aqui: Humanizar a Terra. O que é humanizar a Terra? É superar a dor e o sofrimento, é aprender sem limite, é amar a realidade que constróis...”Bem, estamos muito longe da idéia de natureza humana. Estamos no lado oposto. Quer dizer, se o natural asfixiou o humano, à mercê de uma ordem imposta com a idéia de permanência, agora estamos dizendo o contrário: que o natural deve ser humanizado e que esta humanização do mundo faz do homem um criador de sentido, de direção, de transformação. Se esse sentido é libertador das condições supostamente naturais de dor e sofrimento, o verdadeiramente humano é o que vai além do natural: é teu projeto, teu futuro, teu filho, tua brisa, teu amanhecer, tua tempestade, tua ira e tua carícia. É teu temor e teu estremecimento por um futuro, por um novo ser humano livre de dor e sofrimento. Estudemos a segunda questão, isto é, o próprio registro da humanidade nos outros.Enquanto registrarmos como natural a presença do outro, ele não passará de uma presença objetiva, ou particularmente animal. Enquanto estivermos anestesiados para perceber o horizonte temporal do outro, o outro não terá nenhum sentido além do para-mim. A natureza do outro será um para-mim. Mas ao construir o outro como um para-mim, me constituo e me alieno em meu próprio para-si. Quero dizer: “Eu sou para-mim” e com isso fecho meu horizonte de transformação. Quem coisifica, coisifica a si mesmo e com isso fecha seu horizonte.Enquanto não se experimente ao outro fora do para-mim, minha atividade vital não humanizará o mundo. O outro deveria ser para o meu registro interno, uma cálida sensação de futuro aberto que nem sequer termina no sem-sentido coisificador da morte.Sentir o humano em outro é sentir a vida do outro como um belo arco-íris multicor, que cada vez se distancia na medida em que quero deter, confundir, arrebatar sua expressão. Você se afasta e eu me reconforto se é que contribuí para romper tuas correntes, superar tua dor e sofrimento. E se vens comigo é porque te constituis em um ato livre como ser humano, não simplesmente porque nasceste “humano”. Eu sinto em ti a liberdade e a possibilidade de constituir-te em ser humano. E meus atos têm em você o branco de liberdade. Então, nem tua morte pode deter as ações que puseste em marcha, porque és essencialmente tempo e liberdade. Amo, portanto, no ser humano, a sua humanização crescente. E nestes momentos de crise, de coisificação, nesses momentos de desumanização, amo sua possibilidade de reabilitação futura.

violência?


"Porque há tanta violência? Nós tratamos de educar para a não-violência, nós somos pessoas comprometidas com a não-violência, nós nos movemos, nos organizamos, convencidos que a não-violência ativa é a única metodologia de ação válida.
Eu querua compartilhar com vocês esta reflexão e acredito que todos temos essas mesmas dúvidas. Porque há tanta violência? Porque este ser humano, que sempre reconhece como os melhores momento, aqueles momentos em que se vincula com os demais, em que se comunica com os outros, porque este ser humano, segue neste estado de tanta violência?


Porque a crueldade? Porque a crueldade que é maior que a violência, que é essa intenção violenta para com outros seres humanos? Esta é uma pergunta que deixa algumas pessoas muitas vezes angustiada, meio complicado. Que acontece com esse ser humano? O que se passa com este ser humano que segue aplicando a violência contra outros seres humanos?

Deve haver muitas hipóteses, deve haver muitas explicações, deve haver muitas justificações, porém definitivamente nós seguimos encontrando, dia-a-dia, com que o ser humano aplica todas as formas de violência imagináveis contra outros seres humanos.

Por trás dessa violência, sempre nos encontramos com a negação do humano do outro, sempre está o desconhecimento ou o não reconhecimento do outro que está na minha frente, do humano que há nele.

Mas eu acredito também que uma pessoa pode ter outra visão, frente a esta situação de tanta violência que existe hoje em dia, no mundo. Um pode também olhar desde outro ponto e dizer que o que acontece é que o ser humano é um ser muito jovem, que o que acontece é que esta consciencia todavía não conseguiu, ainda, sair deste estado, um tanto pré-histórico de violência. É um ser muito novo o ser humano!. Não sei as cifras exatas, mas os tubarões levaram setenta milhões de anos dedicando-se a comer-se todos os que encontram em seu caminho... e as baratas, essas que andam por aí, cinquenta milhões de anos e não mudaram muito.

Este ser humano, já faz dois milhões de anos, todavia andava por aí em quatro patas e não muito mais; faz trezentos ou quatrocentocentos mil anos que ele recém descobriu o fogo. Setenta milhões de anos o tubarão mordendo o que pega, trescentos mil anos, nada mais, este ser humano descobriu o fogo. Não faz muito tempo que aprendeu a produzir o fogo. Não é tanto. Que são dez mil gerações? Uma porção de tataravós para trás. Não é muito!

Faz só oito ou dez mil anos que aprendeu a fundir os metais, doze mil, quatorze mil dá no mesmo. É muito pouco! E claro, aprende a fundir-los e faz algumas fontes, porém também faz algumas lanças e outras coisas.

Mas faz uns poucos mil anos, este ser humano via o outro e o que via era uma bela presa, como um frango e via o outro, e o via gordinho e o comia. Agarrava o seu inimigo, lhe cortava a cabeça e le succionava o cérebro e o comia. Também com certa intuição de que algo havia nesse cérebro, mas era assim. Faz mais de mil anos que eles andavam comendo-se uns aos outros e logo deixaram de comer-se, e ao invés de se comerem, diziam "não o como, o escravizo", soa terrível, mas vamos melhorar. Eu o escravizo e então o tenho trabalhando para mim, pelo menos não o como.

E assim foi. E depois de muito tempo nesse processo de tê-lo escravizado, pelos motivos que forem, descobriu que se pagava algumas moedas a esses escravos eles trabalhavam melhor. Então a alguns lhes dava algumas moedas e a outros não, e os primeiros rendiam mais. Como é? Deus escreve torto...? Como é?

E descobriu isso e então começou a lhe pagar e começou então a terminar com a escravidão. Claro que isso aparece nos contos para que as crianças saibam como a grande guerra ou luta acabou com a escravidão. Sim, sim, sim... definitivamente descobriu que se pagasse algumas moedas se produzia mais. Ok, porém terminou a escravidão! E agora então teria esse ser humano trabalhando, pagando uma miséria, umas poucas moedas e melhorou as condições, pois ele já não era escravo, estava trabalhando.

Além de trabalhar, lhe assegurava algumas questões, como lhe dava algo para a saúde, e o educava um pouco, pois assim ele poderia produzir mais e melhor, e então foi lhe melhorando as condições de vida e lhe foi dando alguma previsão. Descobriu que este ser humano estava tranquilo a respeito do seu futuro, também podia trabalhar melhor e nesse caminho de todas as formas, nos encontramos com as condições que foram mudando e que hoje em dia se vê bem este ser humano com situações de violência e de crueldade, de todas as formas, neste curto tempo, de todas as formas ele foi avançando e enquanto nosso amigo tubarão, que falamos antes, segue comendo tudo, aqui este ser humano vai se abrindo passo a passo com a sua intenção de transformar- se a si mesmo e de transformar a seu meio.
E pouco a pouco vão mundando as condições.

Mas segue aplicando a violência. Quando o ser humano vai deixar de aplicar a violência? Quando lhe reproduza repulsão visceral, quando o ato violento lhe produza rechaço, mas um rechaço visceral, um rechaço vegetativo, isso, todavia, ainda não se produziu.

Se entende o que é o rechaço visceral? Há ações que uma pessoa pode realizar que lhe produz rechaço visceral, e o exemplo não é muito elevado, mas comer excrementos lhe produz. Entendem então o que eu digo? Rechaço visceral! A violência não produz ainda esse rechaço visceral, esse rechaço que faz com que não se possa exercer esse ato.

Pois bem, terá que passar o tempo até que no ser humano se produza transformações físicas e psicológicas que façam com que para esse ser humano seja impossível o ato violento, porque seu corpo e seu psiquismo o rechaçam. E isso vai passar, nessa direção vai o ser humano. Não terminou a história, não se preocupem.

O problema é que essa mudança pode tomar muito tempo, por exemplo, um par de milhões de anos. Essa mudança, se é uma mudança ´física e se entendemos que nos últimos trezendo mil anos não se produziram mudanças físicas de importância no ser humano, pode tomar um largo tempo.

Então nós poderíamos não fazer nada e tudo iria bem, porque a longo prazo, finalmente, esse ser humano, iria gerando as transformações em si mesmo que o levariam, finalmente, a deixar para trás o ato violento.

Isso vai acontecer, a pergunta é: como nós podemo acelerar esse processo? Como nós podemos contribuir de algum modo que esse processo tome maior velocidade? Isso é parte de nossa ação, isso é parte do sentido de tudo aquilo que nós estamos realizando. É esse o sentido da ação estrutural que estamos colocando em marcha e esse é o sentido de ação pela não-violência que nós estamos fazendo e proclamando dia-a-dia.

Estamos contribuindo desse modo, quem sabe com pequenas migalhas, mas importantes nesse processo histórico, que o ser humano vai avançando desta pré-história e no futuro poderam rir tal como nós rimos hoje desse ser humano que comia outro ser humano.

Até lá vamos e nós humanistas de diferentes latitudes, o que estamos fazendo é contribuir nesse direção, estamos contribuindo em uma direção na qual não vamos ver o seu resultado final.

E quem sabe esse seja o aspecto mais maravilhoso que tem nossa ação, é uma ação que não termina em nós, não estamos lutando pela não violência, para que nosso pai não nos pegue, nem meu irmão não me bata; estamos lutando pela construção de uma sociedade não violenta para garantir a continuidade do futuro do ser humano, para garantir que esta pré-história seja mais breve possível e este, então, o ser humano em condições de atravessar o umbral que o leve a uma história verdadeiramente humana.

Muito Obrigado
Thomas Hirsch
Humanista Chileno na IV Jornadas Internacionais de Educação e não-violência
Na Universidad de Educación a Distancia UNED, Madri - Espanha"

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Um pouco sobre o movimento humanista


Um pouco sobre o movimento humanista: É um movimento social que não estão de acordo com a realidade atual em que vivemos e busca continuamente dar sentido e unidade à vida, não só às nossas próprias vidas, mas à vida de todas as pessoas que já nasceram com esta realidade que não escolheram e muito menos construíram.Quando foi fundado, seus primeiro membros passaram vários anos estudando à vida humana, como afastar a dos e o sofrimento e aproximar a alegria o prazer e o sentido de viver, até chegar à sua ideologia atual e aos seus princípios básicos.O principal: " Trate os demais como queres que te tratem."
O movimento humanista coloca o ser humano como valor central, acima de qualquer dinheiro, poder ou valor estabelecido pelo atual modelo de vida que temos.Nós nos organizamos através de grupos que se reunem semanalmente para discutir sobre a semana que passou e a pórxima que virá, organizar o que pode ser feito e trabalhar o pessoal.A mudança proposta é social e pessoal simultânea. Mudar o meio e nós mesmos ao mesmo tempo.O dia em que as pessoas tratarem os demais como gostariam de ser tratadas, conhecerão a alegria e o prazer da vida, o verdadeiro sentido, tão diferente do sentido cotidiano e rotineiro de hoje....Se quiser conhecer melhor, ao vivo, a ideologia, nossos projetos, frentes de ação, etc. apareça em uma reunião, Sábados às 16:30hs
Segundas às 19:00hs
Rua Albuquerque Lins, 306 -Santa Cecília (do lado do metro Marachal Deodoro) São Paulo -SP

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Documento Humanista

Os humanistas são mulheres e homens deste século, desta época. Reconhecem os antecedentes do Humanismo histórico e inspiram-se nos contributos das diferentes culturas, não só daquelas que neste momento ocupam um lugar central. São, além disso, homens e mulheres que deixam para trás este século e este milénio e se projectam para um novo mundo.

Os humanistas sentem que a sua história é muito longa e que o seu futuro é ainda mais extenso. Pensam no porvir, lutando por superar a crise geral do presente. São optimistas, crêem na liberdade e no progresso social.

Os humanistas são internacionalistas, aspiram a uma nação humana universal. Compreendem globalmente o mundo em que vivem e actuam no seu meio imediato. Não desejam um mundo uniforme mas sim múltiplo: múltiplo nas etnias, línguas e costumes; múltiplo nas localidades, nas regiões e nas autonomias; múltiplo nas ideias e nas aspirações; múltiplo nas crenças, no ateísmo e na religiosidade; múltiplo no trabalho; múltiplo na criatividade.

Os humanistas não querem amos; não querem dirigentes nem chefes, nem se sentem representantes nem chefes de ninguém. Os humanistas não querem um Estado centralizado, nem um Para-Estado que o substitua. Os humanistas não querem exércitos policiais, nem bandos armados que os substituam.

Porém, entre as aspirações humanistas e as realidades do mundo de hoje, levantou-se um muro. Chegou, pois, o momento de derrubá-lo. Para isso é necessária a união de todos os humanistas do mundo.

Um novo humano é possível.